Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
Nada
Coisa estranha. Às vezes falta inspiração, mas sobra vontade de escrever. E falar sobre o que? Difícil não ser fútil quando falta conteúdo. Que o digam algumas pessoas que certamente conhecemos, não é?
Então pensei, no ápice do meu ócio, tão pouco criativo nestes últimos dias: “Oras, discorrerei então sobre... nada”. Veremos quantas linhas de lingüiça consigo encher.
O nada é a inexistência material ou não, de tudo o que existe. Incoerente? Redundante? Que nada!
E o vazio vai ganhando espaço. Nem alegre, nem triste. A expressão marmórea de um pensador, com pose de pensador, mas que não pensa. Meditação é esvaziar a mente. Seria Carla Perez a reencarnação de Buda? Ou só a bunda?
Mas o que realmente abunda são as folhas em branco. Folhas em branco e uma caneta sem tinta. Corajoso fosse, escreveria com meu próprio sangue. Alguns bons litros, depois um final trágico.
Segunda-feira, 14 de Abril de 2008
Pequena
Tão bela a noite se fazia, tanto a Lua iluminava. No auge da semelhança oposta, brilhava o Sol feminino. Pelo caminho, árvores sábias que já se banhavam em orvalho. A sinfonia agradável dos seres noturnos se espalhava aos quatro cantos de um mundo redondo.
Destemida, a pequena caminhava. Medo nunca fora de sua alçada. Sabia exatamente onde queria chegar. Respirava o ar úmido. Caminhava segura, a largas passadas. Não olhava para trás, pois sabia do risco de perder-se no passado. E lá, não havia lugar para ela.
Deveras não estava sozinha. No seu íntimo, todos a acompanhavam. Sempre. Daí sua força. Juntos, poucos somos muitos.
Por entre as folhas do carvalho centenário, vislumbrou o monte a que procurava. Seria uma longa escalada. Assaz perigosa. Mas superar era sua sina. E a pequena o fez. Não sem sofrimento.
Arranhões. Dor. Mas o fez.
Do topo, a mais aprazível das paisagens. Ao longe, o Sol voltava a brotar do solo fértil. Os pássaros assumiam a música novamente. Sob seus pés, um perfeito tapete verde reluzia.
Mais um passo adiante.
Nunca esteve tão alto.
Cerrou os olhos.
Um suspiro doce escapou-lhe do peito.
E ela deixou-se cair.
Não poderia haver outro fim para a pequena Esperança.
Feche os olhos,
e atire-se também.
Domingo, 18 de Março de 2007
O amor sobe à forca
O amor foi condenado à forca. Seu crime: assassinato. Sim, ele mata. Sua aparência meiga engana. Vela sua essência cruel. A multidão regozija pela justiça que enfim será feita. A pleno pulmões insulta o moribundo que sobe ao palco lúgubre. Seu último ato.
Quem o conhece sabe o quão perigoso é. Jamais se convenceria de sua inocência. Mas, em verdade, todos tinham a estranha sensação de que um equívoco estava prestes a se realizar.
Por obra do destino, seu carrasco, sob a carapuça, ansiava pelo fim. O oposto tão igual. O ódio. Ele que um dia já amou. Um dos poucos que podem se orgulhar por ter sobrevivido. Se viver é apenas respirar.
O mestre de cerimônias repete a sentença. “Amor, condenado à morte por tê-la infligido a incontáveis almas inocentes. Quais são suas últimas palavras, elemento abominável?”.
Silêncio. Se pudesse verbalizar, não seria amor. Não era necessário.
Antes que todos desistissem, ódio faz o amor pender pela corda. Ele se debate. Luta pela vida. A massa arrependida tentar libertá-lo de suas amarras, mas o ódio não permite que se aproxime. Fortaleceu-se em tanto tempo.
Um último suspiro. Está feito.
O ódio prevaleceu. Sem se dar conta de que matou por amor. A semente nunca morre.
Segunda-feira, 10 de Julho de 2006
Alto Conhecimento
Sobretudo, temo a solidão. Solidão além do simples estar sozinho. Solidão onde o indivíduo vaga perdido dentro de si mesmo. O irônico é perceber que esta chaga é gerada pela própria soberba humana. A incansável busca pelo conhecimento e a absurda certeza das ilimitações de seu intelecto.
Para tudo há limites. Os que ultrapassam a barreira do incognoscível prosseguem sem companhia, lutando contra moinhos de vento. O conhecimento deve ser construído sobre os alicerces da vida e nunca o contrário. Utilizar-se da sapiência com alicerce é condenar a vida a ruir com a queda deste. E as teorias humanas sempre caem, substituídas por outras, num ciclo que comprova sua inutilidade e efemeridade.
Tudo o que permanece é misterioso e assim deve permanecer. Devemos nos curvar diante da idéia de que são várias as verdades. Assim sendo, qualquer regra torna-se inválida. Até o “Conhece-te a ti mesmo” é contestável. Parte do homem deve ficar reservada até dele mesmo.
Perdidos em nossos pensamentos não podemos ser alcançados. Nos isolamos. A racionalidade é um mal a ser eliminado. Se há virtude em conter instintos, então fomos forjados equivocadamente. Então somos castelos de areia, construídos cuidadosamente, mas que desaparecerão com a primeira onda da maré cheia.
O que nos mantém vivos é a parte irracional do nosso ser. Aquela que transcende os limites da nossa caixa craniana. Cada um que a nomeie como quiser. Eu a chamo de alma. Ela arrepende-se dos meus pecados. É ela quem se contorce quando amo. E só ela restará quando meu corpo voltar às cinzas.
Terça-feira, 13 de Junho de 2006
Discurso
Como não recebi, até agora, nenhuma oferta de compra, vou usar este blog para mostrar um texto rejeitado. Não permitirei que este discurso fique perdido no tempo. Ele verá a luz. Peço encarecidamente a todos os que lerem o texto: comentem ! E com a máxima sinceridade. É importante para mim...
Com vocês, o discurso de formatura cruelmente criticado pela critica ( re-redundante, eu sei), intitulado "Discurso"
"Discurso"
O tempo é cruel. Vil, eu diria. Destrói estruturas, deforma rostos, separa amigos. Remédio amargo que tudo cura. Sim, é verdade. Apaga lentamente tristes recordações, porém afasta a lembrança dos bons tempos. Bons tempos todos aqueles que ficam para trás.
Tempo e vida são inimigos. Um na contramão do outro, certos de que um dia se encontrarão e ai se dará o fim.
O tempo é linha reta, a vida é um círculo. O tempo é homem, a vida é mulher. O tempo passa, a vida voa, sem saber para onde. Bom, o certo é que o tempo passou e aqui se encerra mais um ciclo de nossas vidas. Acaso, destino, impossibilidade de arcar com as mensalidades de uma faculdade privada, má sorte nos vestibulares de universidades públicas, enfim, sabe-se lá quais forças misteriosas agiram para que nossos caminhos se convergissem num só durante dois anos inteiros.
Dois anos inteiros. Oito horas por dia. Cinco dias por semana. Passávamos mais tempo juntos do que com nossas famílias e mesmo assim sentiremos saudades uns dos outros. Conflitos existiram, é claro. E o que é uma história sem conflitos? Mentira. E mentirosos não somos. Da nossa convivência intensa também nasceu a amizade verdadeira, regada pelo amor. Essa não há tempo que separe, pois foi a vida quem uniu e o que a vida une dura para sempre.
Quanta coisa aprendemos. Certamente fomos muito além da grade curricular. Se o tempo castiga, a vida ensina. Aprendemos uns com os outros, com os professores, funcionários... Os professores são capítulo à parte. Todos tão diferentes uns dos outros, cada um ao seu jeito, despertando nossa tola ira juvenil, por vezes, mas quase sempre acendendo a luz do incentivo em um túnel escuro de incertezas.
Sobretudo, nestes dois anos, rimos. Rimos uns dos outros, dos professores, funcionários... Rir é melhor remédio que o tempo. Por isso passávamos o tempo rindo. Bando de bobos, todos, sem exceção. E a grande bobagem de enfrentar as dificuldades com alegria, de rir ao invés de chorar, somos os maiores adeptos.
Aos que ficaram pelo caminho, aos desertores, nossas sinceras homenagens. Ninguém disse que seria fácil e realmente não foi. Trabalho árduo, caminhada difícil por um terreno irregular. No entanto, de uma maneira ou de outra, todos podemos dizer que valeu a pena.
Agora nos separamos. Alguns continuarão juntos, é verdade, mas outros têm neste momento a última oportunidade de se ver. Portanto, digam tudo o que restou para ser dito. Passemos por cima de briguinhas tolas e mesquinharias para que não nos arrependamos depois.
Pessoalmente, digo que não posso imaginar, hoje, minha vida sem ter conhecido vocês. E afirmo que levarei cada um aqui, comigo, através dos tempos, porque vocês contribuíram e muito para a formação deste que vos fala. São parte de mim.
Como o tempo é inexorável e não pretendo me estender muito, encerro por aqui, desejando felicidade para todos nós. Obrigado por terem compartilhado suas vidas comigo.
Terça-feira, 14 de Março de 2006
Vende-se
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Sábado, 28 de Janeiro de 2006
Mensagem de fim de ano em fevereiro, porque ainda há tempo
Ainda há tempo. Enquanto o coração bate e a vida pulsa, ainda há tempo. Tempo para se dizer o que pensa e ouvir o que os outros pensam. Para deixar o cabelo crescer e pular de pára-quedas. Viajar o mundo em busca de um grande e depois descobrir, cheio de felicidade, que ele estava ao seu lado o tempo todo.
Quando o sopro gélido da morte afagar sua nuca, não pode haver espaço para arrependimentos. E, acredite, só causa arrependimento aquilo que não foi feito. Como, por hora, sua nuca continua quente, ainda há tempo. Encontre uma religião que te agrade, mas procure não concordar com ela. Não de todo, ao menos, pois a fé cega é tão inverossímil quanto à justiça dos homens. Leia. Aprenda. A vida só ensina aos que querem aprender e nunca é tarde para aprender.
Se agora lê estas linhas, ouve estas palavras, é sinal de que ainda há tempo. Tempo para que as pessoas que são importantes na sua vida saibam disso. Para que os que ofendeu ouçam um sincero pedido de desculpas e para que os que te ofenderam sejam perdoados, mesmo que não tenham pedido perdão.
Ainda há tempo para ver o pôr do Sol e admirar a lua cheia radiante num céu estrelado. Mas não faça isto sozinho. Tome coragem e diga a ela que a ama. Deixe que saiba a verdade. Liberte este sentimento tão belo que só te machuca porque quer ver a luz do dia.
Se as lágrimas caem do seu rosto, anime-se: ainda há tempo. No entanto, não se esqueça de que o temo passa. Antes que seja tarde, seque as gotas da sua tristeza e faça o que deve ser feito. Faça o que tem vontade. Não deixe de ser feliz por medo. Faça da sua vida um livro que valha a pena ser lido. Lembre-se de que por mais que o mocinho sofra, enquanto ainda houver tempo, o final pode ser feliz.
Sábado, 10 de Dezembro de 2005
Eu escrevo
Escrevo. Escrevo porque não sei falar. Não que as palavras não se me articulem na boca, mas porque não conversam com o que sinto. Não se dão. Fogem covardemente um do outro, palavra e coração. Daí, aos ouvidos dos que mereciam ouvir, nunca chegam. Daí meu sofrimento. É este meu cárcere cruel, de onde observo o tempo passar, a vida esvair-se tão lentamente quanto acelerado.
Escrevo porque tenho o que escrever. Me calo porque tenho o que dizer. Ah, não poderia eu ser coerente ao menos uma vez? Aos que tentam perscrutar pela carcaça que me protege, meus sinceros agradecimentos. Sinceros agradecimentos. Agora, a palavra, além de não ouvir, tenta calar o coração. Os que tentam conhecer o até então incognoscível de mim são-me as pessoas mais caras dentre as que povoam minha existência. Melhor que isso não posso. Mas estes sabem a proporção do que sinto, mesmo sem nunca ter conseguido dize-lo.
Escrevo porque escrevo. Quanta coisa ninguém nunca leu. Sacio uma necessidade enquanto outra me devora. Um dia me libertarei do casulo. Neste dia serei um só e todos o saberão. Sem medo nem ao menos receio. A vida baça brilhará com toda intensidade, mesmo que pelo derradeiro esforço da chama vacilante, que cedo ou tarde, se apagará.
Sábado, 10 de Setembro de 2005
Mundo de Vento
Aquela imensa cidade, até então habitada por milhares de pessoas, não passava agora de um amontoado de espaços vazios forjados no concreto. Ele não sabia precisar como nem quando acontecera. As pessoas foram simplesmente desaparecendo, uma após outra, até não sobrar mais ninguém além dele próprio.
A solidão leva a reflexão insana. Caminhando pelas antes movimentadas ruas, passou a duvidar da sua própria existência. Em que consistiria o objeto da vida quando não há mais ninguém para compartilhá-la?
Em certa época começou a questionar se haveria realmente um Deus. Posteriormente, as dúvidas tornaram-se uma certeza contra a qual não podia lutar. Agora, de joelhos, cabeça erguida aos céus, gritava a plenos pulmões por um pai que não conhecia. Que grande pecado teria ele cometido para receber tão dura pena?
Das nuvens negras que pendiam sobre sua cabeça iniciou uma chuva que logo tornou-se torrencial. Mas a chuva, por mais intensa que fosse, não era suficiente para lavar sua alma nem arrastar consigo a dor que sentia. As gotas que caiam sobre suas costas ardiam-lhe como golpes desferidos por um chicote. Era sua penitência, seu castigo. Mas por quê? Que mal havia ele feito? Sempre se conduzira tão bem. Como humano que era, errava, mas se arrependia de todo o coração. Era injusto seu mundo ser assim, tão vazio.
Com esforço, levantou-se e tornou a caminhar, ou ao menos tentou. Coisa estranha, a cada passo que dava sentia como que algo a bloquear-lhe o caminho. Não sabia pois, que esbarrava em cada uma das pessoas ao seu redor. Não as via nem tão pouco as poderia ver. Apesar das batidas do seu coração, estava morto. Enterrou-se onde ninguém o encontraria. Estava sozinho, com milhares a sua volta.
Sábado, 13 de Agosto de 2005
Tum-tum
O coração é um órgão de movimentos involuntários. Não podemos controlar suas batidas, pelo contrário, são elas que nos controlam. E estas batidas, por sua vez, possuem o péssimo hábito de destoar de tudo o que é lógico, sensato, razoável e inteligente.
Existem corações de todos os tipos: grandes e pequenos, vermelhos e negros, macios como algodão e duros como pedra. Algumas pessoas possuem mais de um coração, outras nenhum. Estas últimas apresentam um maior senso de auto-preservação e não podem ser censuradas por desejarem verem-se livres da dor. Sim, a dor. Por vezes, o coração pode partir-se. Normalmente isto ocorre por queda acidental, causada por um movimento distraído de uma outra pessoa, que num esbarrão o leva ao chão. O estabanado costuma desculpar-se, até porque seu coração se apieda ao ver o colega partido. Claro que nem por isso o ferido se recupera. Especialistas afirmam que nestes casos há apenas um remédio, amargo porém eficaz: o tempo.
Há quem devore corações. O fazem pelo simples prazer de saboreá-los e dizem serem deliciosos. Os que têm o coração devorado não sobrevivem, pois viver, viver de verdade, não é possível sem este órgão. Já nestes casos, a única alternativa é uma doação em que doador e receptor compartilhem do mesmo coração. Aliás, doar coração é uma prática muito saudável, doe você também.
Os corações se comunicam entre si. Alguns não se entendem. Outros dialogam entre si numa linguagem misteriosa, conhecida popularmente como amor. É esta a maior aptidão dos corações. Amar.
Arrancar o coração do peito nunca é uma solução. Sempre haverá um coração que ouvirá o choro do teu. Sempre haverá amor para conversar. Sempre haverá vida.